Sempre que um novo acidente acontece, o debate costuma seguir o mesmo caminho: culpa-se o motorista, aponta-se o excesso de velocidade ou cobra-se mais fiscalização. Esses fatores realmente importam e não podem ser ignorados. Mas limitar a discussão a eles significa deixar de lado uma questão maior: como a cidade está sendo planejada para que as pessoas se desloquem?
Uma cidade que depende quase exclusivamente do automóvel e da motocicleta acaba concentrando um volume cada vez maior de veículos nas mesmas avenidas. O resultado é previsível: congestionamentos, aumento dos conflitos entre diferentes modos de transporte e maior probabilidade de acidentes.
A Avenida 28 de Março é um exemplo desse desafio. Ela se tornou um dos principais corredores de circulação da cidade, recebendo diariamente milhares de veículos. Entretanto, o crescimento da frota não foi necessariamente acompanhado, na mesma proporção, por alternativas eficientes de mobilidade.
É nesse ponto que o transporte público deixa de ser apenas uma política social e passa a ser também uma política de segurança viária. Um sistema de ônibus confiável, com boa cobertura, horários regulares, integração entre linhas e prioridade operacional pode incentivar parte da população a deixar o carro em casa. Menos veículos nas ruas significam menor pressão sobre a infraestrutura e, em conjunto com outras medidas, podem contribuir para reduzir congestionamentos e o risco de acidentes.
Planejamento urbano não se resume à abertura de novas vias. Ele envolve pensar a cidade de forma integrada: transporte coletivo de qualidade, calçadas acessíveis, ciclovias onde forem viáveis, travessias seguras, fiscalização eficiente, sinalização adequada e educação permanente para o trânsito.
É importante reconhecer que não existe uma solução única para um problema complexo. A redução dos acidentes depende de um conjunto de ações coordenadas entre o poder público e a sociedade. Ainda assim, continuar investindo apenas na expansão do espaço para os veículos particulares, sem fortalecer o transporte coletivo, tende a manter a cidade presa ao mesmo ciclo de congestionamentos e ocorrências.
Cada novo acidente deveria servir não apenas para contabilizar estatísticas, mas para provocar uma reflexão sobre o modelo de mobilidade que queremos para Campos dos Goytacazes.
A pergunta que fica é simples: vamos continuar tratando cada acidente como um episódio isolado ou aproveitar esses acontecimentos para discutir um projeto de cidade que priorize a segurança, a mobilidade e a qualidade de vida?

Nenhum comentário:
Postar um comentário