sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

Polícia Federal apreende dinheiro em apartamento do deputado Sóstenes Cavalcante (PL-RJ).

Imagem: ICL Notícias.
A Polícia Federal realizou, nesta sexta-feira, uma operação de busca e apreensão em endereços ligados ao deputado federal Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), no âmbito de uma investigação que apura suspeitas de desvio de recursos públicos e lavagem de dinheiro. Durante a ação, agentes encontraram uma quantia expressiva, mais de 400 mil, em dinheiro vivo no apartamento funcional utilizado pelo parlamentar, em Brasília.

A operação foi autorizada pelo Ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal e integra um inquérito que investiga o possível uso irregular de verbas da cota parlamentar, por meio de contratos simulados com empresas de fachada. Além do dinheiro apreendido, documentos e equipamentos eletrônicos também foram recolhidos para análise.

Segundo as investigações, há indícios de que recursos públicos destinados ao exercício do mandato teriam sido desviados e posteriormente ocultados, o que pode caracterizar crimes como peculato, organização criminosa e lavagem de dinheiro. Outros parlamentares e assessores também são citados na apuração, que segue sob sigilo.

Até o momento, não houve decretação de prisão, e a apreensão do dinheiro será analisada para apurar sua origem e eventual vínculo com os fatos investigados. A defesa do deputado ainda não apresentou esclarecimentos públicos detalhados sobre o caso.

A Polícia Federal informou que as investigações continuam e que o material apreendido será fundamental para o avanço das apurações. O caso reacende o debate sobre o uso das verbas parlamentares e os mecanismos de fiscalização do dinheiro público no Congresso Nacional.


segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

Saldo da balança comercial da China mostra o sucesso de um país que optou por rejeitar os papeis da Divisão Internacional do Trabalho.

Imagem: Paulo Gala / Economia e Finanças.
O saldo da balança comercial chinesa superando a marca de um trilhão — ainda que os números variem conforme metodologia e contexto anual — funciona, no imaginário global, como um símbolo eloquente de uma trajetória econômica que não é fruto de acaso, mas de um projeto nacional de longo prazo. Mais do que estatísticas frias, esse desempenho monumental revela a potência de um país que soube articular planejamento estatal, capacidade produtiva e domínio tecnológico para reposicionar-se no centro da economia mundial.

A chamada “supremacia chinesa” não nasce apenas do volume de exportações, mas de uma estratégia que integrou investimento maciço em infraestrutura, incentivos industriais, educação técnica e inovação, criando um ecossistema produtivo capaz de operar com eficiência em praticamente todas as etapas da cadeia global. Ao contrário de nações que se contentaram em ocupar posições periféricas na Divisão Internacional do Trabalho, a China construiu deliberadamente sua ascensão, combinando pragmatismo político e ambição geoeconômica.

O superávit gigantesco simboliza esse movimento, pois revela que a China conseguiu transformar seu potencial produtivo em capacidade de ditar ritmos e padrões no comércio mundial. Cada contêiner que sai de seus portos reflete décadas de investimentos em manufatura avançada, logística integrada e políticas industriais que não se deixaram constranger por dogmas de mercado. É esse arcabouço que permite ao país avançar na transição para setores de alta complexidade — como semicondutores, energia renovável e veículos elétricos — mantendo competitividade mesmo diante de tensões comerciais e tentativas de contenção por parte de potências ocidentais.

Além disso, o acúmulo de superávits reforça o poder financeiro chinês, garantindo reservas cambiais colossais que servem não apenas como colchão de estabilidade, mas também como ferramenta de projeção internacional. Em outras palavras, o saldo comercial não é um fim em si, mas parte de um mecanismo que amplia a margem de manobra da China no tabuleiro geopolítico, permitindo-lhe desafiar estruturas tradicionais de poder.

Para muitos países, especialmente em desenvolvimento, o contraste é evidente: enquanto alguns aceitaram passivamente o papel que lhes foi atribuído, a China reescreveu sua própria trajetória. O superávit trilionário é, portanto, mais do que um indicador econômico — é a prova de que um Estado capaz de articular visão estratégica, planejamento e soberania política pode alterar a própria posição na hierarquia global.

Se existe hoje uma supremacia chinesa, ela não nasce da retórica, mas desses resultados concretos que se acumulam ano após ano, mostrando que o século XXI tem, cada vez mais, um centro de gravidade deslocado para o Oriente.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

O espetácula da Guerra entre os Poderes da República e uma platéia de não cidadãos.

Imagem: Nexo Jornal
Há momentos na história em que a crise política deixa de ser um conflito institucional e passa a revelar algo mais profundo: a própria falência do vínculo entre povo e poder. O Brasil parece atravessar exatamente esse ponto crítico. A sucessão de choques entre Poder Executivo, Legislativo e Judiciário — cada qual movido por interesses próprios, ambições particulares e disputas por parcela maior do Estado — já não expressa uma defesa da Constituição ou da democracia, mas sim a guerra interna das elites pela condução do projeto nacional. Uma guerra que se tornou espetáculo, exposta em transmissões ao vivo, notas oficiais e discursos inflamados. E, como plateia, o país assiste. Mas assiste como? Assiste como sociedade de não cidadãos.

A noção de “não cidadão” não significa ausência de documentos ou de identidade legal. Significa algo mais profundo: a exclusão material e simbólica do povo das decisões que moldam seu destino. Trata-se de uma cidadania mutilada que só se manifesta no instante do voto, mas é silenciada no intervalo entre eleições, quando as elites travam suas batalhas privadas dentro das instituições públicas. Nas disputas por cargos, emendas, prerrogativas e blindagens, o povo é sempre o ausente — e, ao mesmo tempo, o maior afetado.

Essa condição de não cidadania se expressa de diversas formas. Aparece na falta de participação social real, reduzida a audiências públicas meramente protocolares. Manifesta-se na incapacidade das instituições de responder às necessidades elementares da população enquanto respondem rapidamente aos interesses dos grupos que as ocupam. E revela-se, sobretudo, no distanciamento emocional, no desencanto generalizado e na convicção crescente de que “nada muda”. Quando a política se torna um campo exclusivo das elites, a população deixa de se enxergar como sujeito histórico e passa a atuar apenas como espectadora — muitas vezes indiferente, outras vezes resignada.

O conflito permanente entre os poderes da República, vendido como crise institucional, é na verdade o reflexo dessa ruptura mais profunda. O que deveria ser sistema de freios e contrapesos virou disputa por território, por domínio e por sobrevivência das elites que se protegem e se enfrentam conforme a conveniência do momento. O Legislativo age para ampliar seus privilégios e enfraquecer o controle externo; o Executivo tenta esticar suas margens de ação em nome da governabilidade; o Judiciário, por sua vez, reivindica protagonismo político quando a ordem constitucional parece ameaçada. Nada disso tem relação direta com o cotidiano do povo, mas tudo isso molda sua vida.

O drama central está no fato de que, enquanto as elites guerreiam, a sociedade se acostuma à condição de plateia. Passiva, observa o país ser redesenhado sem sua participação — e por vezes sem sequer compreender em que medida essas disputas afetam sua própria existência. É a naturalização da exclusão: quando se espera tão pouco da política, a política se permite entregar cada vez menos.

O desafio, portanto, não é apenas resolver a crise entre os poderes, mas reconstruir o próprio sentido de cidadania. Significa fazer com que as pessoas deixem de ser espectadoras da história e retomem seu papel de protagonistas; que a participação não se limite ao voto, mas se expanda para mecanismos efetivos de controle social, deliberação pública e democratização do Estado. Só assim a guerra das elites deixará de definir o destino do país. E só assim o Brasil poderá superar essa longa era em que cidadãos foram transformados em não cidadãos — e em que o futuro nacional se tornou palco exclusivo de poucos, assistido pela maioria em silêncio.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

Os atos de Davi Alcolumbre são reflexos de um Congresso acostumado a presidentes da República biônicos.

Os movimentos recentes de Davi Alcolumbre no Senado não surgem do nada. Eles são expressão de uma mentalidade que se consolidou no Congresso brasileiro ao longo das últimas décadas e que atingiu seu auge durante o governo Bolsonaro: a lógica de um Parlamento habituado a lidar com presidentes de legitimidade fragilizada, governantes que dependiam profundamente de acordos internos e, portanto, eram tratados como versões modernas de presidentes biônicos.

O bolsonarismo, apesar do respaldo eleitoral de 2018, rapidamente produziu um governo incapaz de exercer liderança política real. A ausência de projeto, a conflituosidade permanente e a incapacidade de construir coalizões transformaram o Executivo numa espécie de ente tutelado, fragilizado, cativo de interesses parlamentares. O chamado “presidencialismo de delegação”, no qual Bolsonaro terceirizou a condução do país ao centrão, permitiu ao Congresso recuperar — e ampliar — uma lógica que remete às práticas autoritárias da ditadura: a sensação de que o Legislativo pode tudo, e o presidente, quase nada.

Nesse ambiente, figuras como Davi Alcolumbre florescem. Sua atuação recente — travando votações, condicionando sabatinas, distribuindo poder em trocas opacas — não é mero capricho pessoal. É o produto de um arranjo que fez do Senado um centro de controle informal do Executivo, sobretudo durante um período em que o presidente da República dependia quase inteiramente da boa vontade dos caciques parlamentares para sobreviver politicamente.

O governo Bolsonaro, ao abdicar das responsabilidades típicas de um chefe de Estado e de governo, deixou um vazio que o Congresso preencheu com voracidade. A normalização dessa hipertrofia legislativa levou muitos parlamentares a agirem como se tivessem mandato para tutelar o Executivo de forma permanente. Assim, práticas que deveriam ser exceções emergenciais se tornaram hábitos: chantagens veladas, boicotes estratégicos, negociações que lembram o exercício de poder de oligarquias políticas, e não de instituições republicanas.

Os atos de Alcolumbre, portanto, não são apenas expressão de ambição pessoal. São reflexo de um Congresso que se acostumou a lidar com presidentes politicamente enfraquecidos — e que, por isso, passou a confundir mecanismos de fiscalização com mecanismos de dominação. O período Bolsonaro consolidou esse padrão ao extremo, reforçando a ideia de que o Parlamento pode, sem pudor, capturar a agenda nacional e usar o desequilíbrio entre os poderes em benefício próprio.

Romper com essa herança é um dos maiores desafios da democracia brasileira. O país precisa reconstruir a normalidade institucional, restabelecendo limites claros entre controle e tutela, entre fiscalização e captura. Enquanto parte do Congresso continuar a agir sob a lógica dos “presidentes biônicos”, a política seguirá refém de caciques e de interesses corporativos, e não dos princípios republicanos que deveriam orientar a vida pública.

Polícia Federal apreende dinheiro em apartamento do deputado Sóstenes Cavalcante (PL-RJ).

Imagem: ICL Notícias. A Polícia Federal realizou, nesta sexta-feira, uma operação de busca e apreensão em endereços ligados ao deputado fede...