Sempre que um novo homicídio é registrado em Guarus, o debate sobre segurança pública volta à pauta. Multiplicam-se os pedidos por mais policiamento, operações e ações repressivas. Essas medidas são importantes e necessárias. No entanto, limitar a discussão da violência à atuação das forças de segurança é ignorar uma realidade muito mais profunda e incômoda: a violência que assusta Campos dos Goytacazes é, em grande medida, fruto de décadas de exclusão social e abandono territorial.
Guarus não se tornou uma região vulnerável por acaso. Ao longo de décadas, o crescimento populacional não foi acompanhado por investimentos proporcionais em infraestrutura, educação, mobilidade urbana, cultura, lazer e geração de emprego. Enquanto algumas áreas da cidade receberam sucessivos investimentos públicos e privados, grande parte dos bairros de Guarus permaneceu convivendo com carências históricas.
O resultado dessa desigualdade é visível. Muitos jovens crescem em territórios onde as oportunidades são escassas e o acesso a direitos básicos é limitado. Nesse contexto, organizações criminosas encontram terreno fértil para recrutar, influenciar e exercer poder. Não se trata de justificar o crime, mas de reconhecer que a criminalidade não nasce do nada. Ela se desenvolve em ambientes marcados pela ausência do Estado e pela falta de perspectivas.
Existe uma verdade que nem sempre estamos dispostos a admitir: a violência não é apenas um problema de segurança pública; ela é também um problema social, econômico e urbano. Quando uma cidade permite que parte significativa de sua população permaneça à margem do desenvolvimento, acaba criando as condições para o agravamento dos conflitos sociais.
Campos ainda convive com uma divisão simbólica que atravessa o Rio Paraíba do Sul. Há, no imaginário de muitos, uma cidade de um lado da ponte e outra do outro. Essa percepção reflete diferenças reais na distribuição de investimentos, serviços e oportunidades. Enquanto essa desigualdade persistir, qualquer política de segurança estará atuando apenas sobre os efeitos, e não sobre as causas do problema.
A solução para a violência passa, necessariamente, pela presença policial eficiente, pela investigação criminal e pela aplicação da lei. Mas passa também pela construção de escolas de qualidade, pela ampliação das oportunidades de emprego, pela valorização dos espaços públicos, pelo incentivo ao esporte, à cultura e à qualificação profissional. Em outras palavras, passa pela inclusão social.
Guarus não pode continuar sendo lembrado apenas pelas manchetes policiais. A região abriga trabalhadores, estudantes, empreendedores e famílias que lutam diariamente por uma vida melhor. Reduzir Guarus à violência é ignorar sua riqueza humana e seu potencial de desenvolvimento.
Se Campos deseja construir uma cidade mais segura, precisará enfrentar um desafio maior do que o combate ao crime: o combate à desigualdade. Afinal, a violência que hoje preocupa toda a população não é apenas consequência da ação de criminosos. Ela é também o reflexo das escolhas políticas, econômicas e urbanas feitas ao longo da história.
Enquanto a exclusão social permanecer como marca de uma parte significativa do território campista, a paz continuará sendo um objetivo distante. Segurança pública e justiça social não são agendas concorrentes. São, na verdade, duas faces da mesma discussão sobre o futuro da cidade.
Vanderson Gama,
Geógrafo.
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