Nesta quarta-feira, 8 de julho de 2026, o cortejo fúnebre do aiatolá Ali Khamenei deixou o solo iraniano e atravessou a fronteira rumo ao Iraque. Parada simbólica em Najaf e Karbala, dois dos endereços mais sagrados do islamismo xiita, antes do sepultamento final em Mashhad. O gesto não é apenas religioso. É geopolítico, calculado, e talvez revelador de uma das maiores derrotas estratégicas que Washington já produziu no Oriente Médio nas últimas décadas.
A escolha da rota não foi acidental. Ao levar os restos mortais de Khamenei por Qom, Najaf, Karbala e, por fim, Mashhad, o establishment religioso iraniano desenhou uma peregrinação que amarra a morte do líder ao mito fundador do xiismo: o martírio do Imã Hussein em Karbala, há 1.300 anos. A mensagem implícita é clara: Khamenei não morreu como um governante qualquer, mas como um mártir cuja causa se funde à própria identidade xiita transnacional.
Isso importa porque o público desse funeral não é apenas iraniano. Delegações de mais de 100 países passaram por Teerã, representantes do Hezbollah, do Hamas, da Jihad Islâmica e dos houthis também estiveram presentes, e províncias inteiras do Iraque decretaram feriado para que fiéis pudessem viajar a Najaf e Karbala. O funeral de um homem se transformou, na prática, em um evento de convergência para diferentes grupos e comunidades xiitas da região, unidos por laços religiosos, políticos e culturais que atravessam fronteiras nacionais.
Matar Khamenei em um ataque aéreo conjunto de Estados Unidos e Israel, no primeiro dia da guerra, em 28 de fevereiro, pode ter sido um dos cálculos mais equivocados da política externa americana para o Oriente Médio.
A morte violenta de Khamenei ofereceu ao establishment iraniano exatamente o que lhe faltava: um mártir. Analistas como Sina Toossi já apontaram que Khamenei se tornou "simbolicamente mais poderoso morto do que era vivo", transformado de burocrata clerical envelhecido em figura equiparável aos santos xiitas mortos por perseguição.
Do ponto de vista da engenharia de poder, isso é quase um manual invertido de contrainsurgência: ao invés de decapitar a liderança e fragmentar o regime, o ataque criou uma narrativa de coesão. Hezbollah, houthis, milícias iraquianas e grupos palestinos encontraram em Karbala e Najaf um palco unificador, precisamente as cidades que simbolizam resistência histórica contra o que a tradição xiita chama de "governantes ilegítimos". Ao vincular a morte de Khamenei a Karbala, o regime iraniano não está apenas enterrando um líder; está recrutando gerações futuras para uma narrativa de vingança religiosa que atravessa fronteiras nacionais.
O que torna esse funeral distinto de rituais anteriores (inclusive o de Khomeini, em 1989) é justamente sua dimensão internacional deliberada. Ao peregrinar por território iraquiano, o cortejo reforça a ideia de que a causa iraniana é also a causa xiita regional, atravessando as fronteiras que separam Irã, Iraque, Líbano e comunidades xiitas na Ásia do Sul. Cartazes pedindo retaliação contra os Estados Unidos e seu presidente circularam livremente durante os cortejos em Teerã, e a retórica oficial de Teerã já fala em buscar responsabilização em tribunais internacionais, um discurso que, goste-se ou não, encontra eco simpático entre populações que se sentem historicamente agredidas pela intervenção ocidental na região.
Se a intenção da operação militar era enfraquecer o regime e fragmentar sua rede de influência, o resultado observável até aqui aponta na direção oposta: maior coesão interna, aparente reforço da legitimidade do establishment clerical e uma plataforma simbólica que une atores regionais díspares sob uma mesma bandeira de luto e vingança.
O funeral termina amanhã, 9 de julho, com o sepultamento em Mashhad. Mas a pergunta que ele deixa em aberto vai muito além do ritual: os Estados Unidos, ao eliminar Khamenei, mataram um líder ou fabricaram um mito? A resposta a essa pergunta, e não o desfecho da guerra em si, pode definir o equilíbrio de poder no Oriente Médio pelas próximas décadas.
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