Eleições na Alemanha: o fantasma dos anos 1930 volta a rondar a Europa.

As eleições na Alemanha voltaram a colocar a Europa diante de uma questão que durante décadas parecia confinada aos livros de História: o crescimento da extrema direita e os riscos de uma transformação profunda do cenário político alemão. A vitória da Alternativa para a Alemanha (AfD) em uma eleição estadual representa mais do que um resultado eleitoral regional. Ela revela o avanço de uma força política que deixou de ocupar uma posição marginal e passou a disputar efetivamente o poder, em um país cuja memória histórica torna qualquer crescimento da extrema direita especialmente sensível. Em entrevista à GloboNews, o professor Leonardo Trevisan chamou atenção justamente para esse aspecto histórico, lembrando as semelhanças existentes entre determinadas condições do presente e o ambiente político, econômico e social que marcou a Alemanha na década de 1930.

A comparação, evidentemente, não significa dizer que a Alemanha atual esteja repetindo automaticamente a trajetória que levou à ascensão do nazismo. A Alemanha contemporânea possui instituições democráticas consolidadas, uma Constituição construída depois da Segunda Guerra Mundial, mecanismos de proteção institucional e uma sociedade profundamente marcada pela memória dos crimes cometidos pelo regime nazista. A semelhança apontada por Trevisan deve ser compreendida em outro nível: o das condições sociais e econômicas que podem favorecer o crescimento de movimentos políticos radicais. Na década de 1930, a Alemanha enfrentava uma combinação devastadora de crise econômica, desemprego, perda de poder de compra, descrédito das instituições, polarização política e desesperança social. Em um ambiente no qual uma parcela significativa da população deixava de acreditar que os partidos tradicionais seriam capazes de solucionar seus problemas, discursos radicais passaram a encontrar espaço crescente.

É justamente essa dimensão histórica que torna o atual avanço da extrema direita alemã preocupante. A Europa atravessa uma conjuntura econômica marcada por dificuldades que atingem diretamente a população. A inflação, embora tenha recuado em relação ao auge da crise provocada pela pandemia, pela ruptura das cadeias produtivas e pelo choque energético decorrente da guerra na Ucrânia, continua sendo uma preocupação. O aumento dos preços de alimentos, energia, serviços e outros bens essenciais alterou o padrão de consumo das famílias europeias e provocou uma redução da percepção de bem-estar econômico. Na Alemanha, essa situação se combina com dificuldades específicas de sua estrutura produtiva. A economia alemã passou décadas apoiada em uma forte indústria exportadora, energia relativamente barata e intensa integração com o comércio internacional. Esse modelo foi pressionado pela guerra na Ucrânia, pela mudança das relações energéticas com a Rússia, pela concorrência internacional, pela transformação tecnológica e pelas dificuldades enfrentadas por setores tradicionais da indústria.

Ao mesmo tempo, o combate à inflação levou o Banco Central Europeu a adotar uma política monetária restritiva durante um longo período. Quando os juros permanecem elevados, o crédito fica mais caro, os investimentos são reduzidos e o consumo tende a perder força. Empresas encontram mais dificuldade para financiar expansão, famílias enfrentam custos maiores para contratar crédito e a economia passa a operar sob maior pressão. O problema se torna particularmente delicado quando a inflação permanece resistente enquanto o crescimento econômico é baixo. Surge então o risco de um quadro de estagnação econômica associado à inflação, fenômeno conhecido como estagflação. Embora seja incorreto afirmar que a Alemanha esteja reproduzindo exatamente uma situação de estagflação como a observada em determinados momentos históricos, a combinação entre crescimento fraco, inflação ainda pressionada, juros elevados e dificuldades industriais cria um ambiente econômico capaz de produzir insegurança social.

E é justamente a insegurança que pode transformar uma crise econômica em uma crise política. Quando o cidadão percebe que seu salário compra menos, que o custo de vida aumenta, que o crédito se torna mais caro e que suas perspectivas profissionais se deterioram, a insatisfação deixa de ser apenas econômica e passa a atingir a confiança nas instituições. O desemprego ou o medo do desemprego possui uma dimensão ainda mais profunda, porque não representa apenas perda de renda: representa perda de perspectivas, de estabilidade e de expectativa em relação ao futuro. Em determinadas circunstâncias, essa frustração pode ser canalizada por movimentos políticos que apresentam respostas simples para problemas extremamente complexos.

É nesse espaço que a extrema direita consegue avançar. A AfD construiu parte importante de sua expansão a partir de um discurso que combina nacionalismo, crítica à imigração, oposição às políticas estabelecidas pela União Europeia, questionamentos às elites políticas tradicionais e promessa de recuperação da soberania nacional. Em regiões do leste alemão, onde permanecem diferenças econômicas, sociais e demográficas em relação a áreas mais prósperas do oeste, esse discurso encontrou terreno especialmente fértil. A percepção de abandono, a redução das oportunidades econômicas, o envelhecimento populacional e a sensação de que determinadas regiões ficaram para trás ajudam a compreender por que a mensagem da extrema direita ganhou força.

O resultado eleitoral, portanto, não pode ser analisado isoladamente. Ele precisa ser inserido em um processo mais amplo de transformação política da Europa. França, Itália, Países Baixos, Áustria e outros países europeus também registraram, nos últimos anos, crescimento de partidos nacionalistas e de extrema direita. O fenômeno possui características diferentes em cada país, mas existe um elemento comum: a dificuldade dos sistemas políticos tradicionais em responder satisfatoriamente às novas tensões econômicas, sociais e culturais produzidas pela globalização, pela imigração, pelas mudanças tecnológicas, pela crise energética e pelas transformações do mercado de trabalho.

Na Alemanha, entretanto, a questão possui uma dimensão histórica particular. O país foi o centro da experiência nazista e conhece, de forma muito concreta, as consequências que podem surgir quando uma democracia entra em processo de deterioração institucional e radicalização política. A lembrança da década de 1930, portanto, não é simplesmente uma referência histórica. É um alerta sobre como crises econômicas e sociais podem ser utilizadas politicamente por movimentos que prometem reconstruir a ordem através da exclusão, do nacionalismo extremo e da identificação de inimigos internos ou externos.

A principal diferença em relação ao passado é que hoje a extrema direita não precisa necessariamente chegar ao poder através de uma ruptura violenta com as instituições. Ela pode avançar por meio das próprias regras democráticas, conquistando votos, cadeiras parlamentares e participação em governos. Esse é talvez um dos aspectos mais importantes do atual cenário alemão. Uma eventual chegada da AfD ao governo não significaria necessariamente o fim imediato da democracia alemã. O verdadeiro desafio estaria na possibilidade de uma força política que durante décadas foi mantida fora das principais estruturas de poder passar a influenciar diretamente as políticas de Estado.

Uma vitória mais ampla da extrema direita poderia produzir consequências significativas para a Alemanha e para toda a Europa. Poderia modificar a política migratória alemã, alterar sua posição dentro da União Europeia, influenciar a política energética, modificar a relação do país com a guerra na Ucrânia e provocar novas tensões dentro do próprio projeto europeu. Como maior economia da União Europeia, qualquer mudança profunda na orientação política alemã teria consequências que ultrapassariam suas fronteiras.

Por isso, a questão central não é simplesmente perguntar por que a AfD está crescendo, mas compreender por que parte da sociedade alemã está encontrando nesse partido uma alternativa aos partidos tradicionais. A resposta passa pela economia, mas não se limita a ela. A inflação, o desemprego, os juros elevados e o baixo crescimento contribuem para criar um ambiente de insegurança, mas são as percepções sociais produzidas por essas dificuldades que podem determinar o comportamento eleitoral. Quando uma sociedade começa a acreditar que o futuro será pior que o presente, cresce a disposição para experimentar alternativas políticas mais radicais.

É nesse ponto que a lembrança feita por Leonardo Trevisan sobre a década de 1930 ganha força. A História não se repete mecanicamente, mas determinados mecanismos sociais podem reaparecer em contextos diferentes. A Alemanha atual não é a Alemanha de Weimar, e a Europa de hoje não é a Europa que antecedeu a Segunda Guerra Mundial. Mas a experiência histórica demonstra que crises econômicas prolongadas, desemprego, perda de expectativas, polarização política e descrédito das instituições podem abrir espaço para movimentos que prometem soluções radicais.

A grande questão colocada pelas atuais eleições alemãs, portanto, não é apenas quem venceu ou perdeu uma disputa eleitoral. É saber se as democracias europeias conseguirão responder às causas econômicas e sociais que alimentam a radicalização política. Combater a extrema direita apenas através da rejeição eleitoral pode não ser suficiente se as causas da insatisfação permanecerem intactas. Se a população continuar enfrentando perda de poder de compra, insegurança profissional, dificuldades habitacionais, juros elevados e falta de perspectivas, haverá sempre espaço para discursos que prometam uma ruptura.

A Alemanha encontra-se, assim, diante de uma encruzilhada. De um lado, possui instituições democráticas fortes e uma memória histórica que funciona como importante barreira contra o autoritarismo. De outro, enfrenta transformações econômicas e sociais que alimentam a insatisfação e oferecem à extrema direita uma oportunidade inédita de crescimento. O fantasma dos anos 1930 não significa que a História esteja simplesmente voltando. Significa que algumas das condições que permitiram a ascensão dos extremismos continuam sendo reconhecíveis quando uma sociedade perde confiança em sua capacidade de construir um futuro melhor.

A vitória da extrema direita, nesse contexto, deve ser vista menos como uma anomalia eleitoral e mais como um sintoma. Ela revela uma Europa em transformação, pressionada por dificuldades econômicas, mudanças demográficas, imigração, conflitos internacionais e uma crescente desconfiança em relação às estruturas políticas tradicionais. O desafio para a Alemanha e para o continente será impedir que a insatisfação social seja transformada em rejeição da própria democracia. Afinal, a grande lição deixada pela década de 1930 talvez seja justamente essa: quando a crise econômica se transforma em desesperança e a desesperança se transforma em descrédito das instituições, o terreno para o radicalismo político começa a ser construído.

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