Campos dos Goytacazes: riqueza do petróleo e os desafios de transformar royalties em desenvolvimento.
Diagnóstico socioeconômico — Parte 1
Por Vanderson Gama
Introdução
Campos dos Goytacazes construiu, nas últimas décadas, uma posição singular na economia fluminense. O município possui território extenso, população superior a 500 mil habitantes e uma história marcada pela exploração de petróleo e pela entrada de elevados volumes de royalties e Participações Especiais.
Mas uma questão permanece fundamental:
quanto dessa riqueza foi efetivamente transformado em desenvolvimento econômico e social para a população?
Essa é a pergunta que orienta o presente diagnóstico socioeconômico, elaborado a partir do cruzamento de informações públicas do IBGE, Ministério do Trabalho e Emprego/Caged, Agência Nacional do Petróleo (ANP), Prefeitura de Campos e outras bases oficiais.
Esta primeira parte apresenta o problema, reconstrói a trajetória da riqueza petrolífera e estabelece as principais hipóteses que serão investigadas nas próximas etapas.
1. Uma cidade de grandes dimensões
Segundo o IBGE, Campos dos Goytacazes possui 4.032,487 km² e tinha 483.540 habitantes no Censo 2022. A estimativa populacional para 2025 é de 519.259 habitantes.
O município registrou ainda PIB per capita de R$ 88.831,26 em 2023.
Na administração pública, o volume financeiro também é expressivo: em 2024, Campos apresentou R$ 2,95 bilhões em receitas brutas realizadas e R$ 3,31 bilhões em despesas brutas empenhadas, segundo os dados disponibilizados pelo IBGE com base nas informações fiscais do município.
Esses números ajudam a dimensionar a capacidade econômica e fiscal do município.
Mas também demonstram por que o PIB e o tamanho do orçamento, isoladamente, não são suficientes para avaliar o desenvolvimento.
Uma cidade pode movimentar bilhões de reais e, ainda assim, apresentar desigualdades, problemas de infraestrutura, baixa diversificação produtiva ou dificuldades para transformar riqueza em renda para sua população.
2. A extraordinária ascensão dos royalties
A história recente de Campos não pode ser compreendida sem considerar o petróleo.
No final da década de 1990, as receitas de royalties e Participações Especiais estavam em uma escala completamente diferente daquela observada posteriormente.
Uma reconstrução histórica baseada em dados do sistema InfoRoyalties/UCAM mostra que Campos recebeu aproximadamente:
| Ano | Royalties + Participação Especial |
|---|---|
| 1999 | R$ 57 milhões |
| 2000 | R$ 158 milhões |
| 2001 | R$ 200 milhões |
| 2002 | R$ 348 milhões |
| 2003 | R$ 475 milhões |
| 2004 | R$ 550 milhões |
| 2005 | R$ 678 milhões |
| 2006 | R$ 853 milhões |
| 2007 | R$ 780 milhões |
| 2008 | R$ 1,17 bilhão |
| 2009 | R$ 993 milhões |
| 2010 | R$ 1,02 bilhão |
| 2011 | R$ 1,24 bilhão |
| 2012 | R$ 1,35 bilhão |
| 2013 | R$ 1,30 bilhão |
| 2014 | R$ 1,21 bilhão |
| 2015 | R$ 473 milhões |
Os valores acima são apresentados como série histórica preliminar. Para o relatório definitivo, os dados serão posteriormente confrontados ano a ano com os arquivos oficiais da ANP, mantendo separadas as categorias de royalties e Participação Especial.
O que a série já revela, entretanto, é impressionante.
Entre 1999 e 2012, a receita anual de royalties e Participação Especial passou de aproximadamente R$ 57 milhões para R$ 1,35 bilhão.
O crescimento nominal foi superior a vinte vezes.
O auge ocorreu em 2012.
Depois disso, o município entrou em uma nova fase, marcada pela redução das receitas petrolíferas.
3. O fim da era da abundância não significou o fim da riqueza petrolífera
É importante evitar uma interpretação equivocada.
Campos não deixou de receber royalties.
Mesmo após a forte redução observada a partir de 2015, os valores continuaram representando uma fonte relevante de receita pública.
Em 2024, por exemplo, o próprio relatório do órgão central de Controle Interno da Prefeitura registrou R$ 787,35 milhões em receitas de royalties, incluindo Participação Especial.
O mesmo documento informa que os recursos foram associados a despesas de aproximadamente:
R$ 129,76 milhões em pessoal e encargos;
R$ 6,14 milhões em juros e encargos da dívida;
R$ 661,84 milhões em outras despesas correntes;
R$ 23,68 milhões em investimentos.
O relatório também informa que a diferença entre a receita e as despesas discriminadas foi coberta por superávit financeiro.
Esse dado não permite, sozinho, concluir que os royalties tenham sido mal utilizados.
Mas ele estabelece uma questão que deverá ser investigada:
quanto da riqueza petrolífera foi efetivamente transformado em investimentos capazes de gerar desenvolvimento futuro?
Essa talvez seja a principal pergunta de todo o diagnóstico.
4. O problema não é apenas receber royalties
Durante muitos anos, o debate público sobre Campos concentrou-se no tamanho dos royalties.
Mas essa abordagem é insuficiente.
O verdadeiro indicador de desenvolvimento não deveria ser simplesmente:
quanto o município recebeu.
A pergunta mais importante é:
o que o município conseguiu construir com aquilo que recebeu?
A riqueza petrolífera poderia, por exemplo, ter sido convertida em:
infraestrutura urbana;
saneamento;
mobilidade;
habitação;
educação;
qualificação profissional;
saúde;
inovação;
industrialização;
apoio à agricultura;
turismo;
ciência e tecnologia;
diversificação empresarial;
fundos de desenvolvimento para o período pós-petróleo.
Isso permitiria transformar uma receita temporária — derivada de um recurso natural não renovável — em patrimônio econômico e social permanente.
5. O mercado de trabalho apresenta uma pista importante
Os dados do mercado formal de trabalho mostram que a economia campista vem apresentando capacidade de geração de empregos.
Segundo o Caged, Campos encerrou 2025 com saldo positivo de 1.490 empregos formais.
O setor de Serviços foi responsável pelo maior saldo, com 1.929 novas vagas, seguido pelo Comércio, com 302, e pela Agropecuária, com 138.
Em 2024, foram gerados 2.946 empregos formais.
Entre 2021 e 2024, o município acumulou 14.247 novas vagas, também segundo os dados do Novo Caged divulgados pela Prefeitura. Em 2024, Serviços respondeu por 2.249 vagas, enquanto Indústria, Construção Civil, Comércio e Agropecuária apresentaram saldos menores.
Esse comportamento é particularmente importante para a nossa análise.
A geração de empregos recente não está concentrada exclusivamente na indústria petrolífera.
Serviços assumem papel cada vez mais importante.
Isso pode representar um processo de diversificação econômica.
Mas ainda precisamos descobrir qual é a qualidade e a estrutura desses serviços.
6. Campos e Macaé: uma comparação indispensável
A comparação com Macaé será um dos instrumentos centrais das próximas etapas.
Os dois municípios estão inseridos na economia do petróleo e pertencem à mesma região Norte Fluminense.
Entretanto, apresentam estruturas econômicas distintas.
Em 2025, até outubro, Campos registrava 2.291 novas vagas formais, enquanto Macaé apresentava 7.384.
A diferença é significativa.
Isso levanta uma pergunta:
por que dois municípios beneficiados pela economia petrolífera apresentam capacidades tão diferentes de geração de empregos?
Uma possível explicação está na estrutura produtiva.
Macaé consolidou-se como importante polo operacional da cadeia de petróleo e gás.
Campos, apesar de sua enorme arrecadação histórica e de sua proximidade territorial, apresenta uma estrutura econômica mais diversificada e fortemente apoiada em serviços, comércio, setor público e atividades agropecuárias.
A comparação poderá mostrar se a estratégia de desenvolvimento de Campos produziu resultados superiores, equivalentes ou inferiores aos de outros municípios produtores ou beneficiários do petróleo.
7. PIB elevado não significa necessariamente desenvolvimento
Outro cuidado metodológico será separar três conceitos:
Riqueza produzida
Representada principalmente pelo PIB.
Renda apropriada
Aquilo que efetivamente chega às famílias, trabalhadores e empresas.
Desenvolvimento
Resultado mais amplo envolvendo renda, emprego, infraestrutura, educação, saúde, qualidade urbana e redução das desigualdades.
O PIB per capita de Campos chegou a R$ 88.831,26 em 2023, segundo o IBGE.
Esse número é expressivo.
Mas ele não responde sozinho à pergunta sobre a qualidade de vida da população.
O PIB pode crescer em razão de atividades econômicas altamente produtivas sem que o crescimento seja distribuído proporcionalmente entre os habitantes.
Por isso, nas próximas partes do diagnóstico serão cruzados:
PIB × renda × emprego × pobreza × arrecadação × royalties × investimento público.
8. A hipótese central do diagnóstico
A partir dos dados levantados até aqui, podemos formular uma hipótese de trabalho:
A enorme disponibilidade de receitas petrolíferas ampliou significativamente a capacidade fiscal de Campos dos Goytacazes, mas a conversão dessa riqueza em diversificação econômica, emprego, infraestrutura e desenvolvimento social precisa ser medida e não presumida.
Essa formulação é importante porque não parte de uma conclusão política previamente definida.
O objetivo será verificar empiricamente a hipótese.
9. O que será investigado nas próximas partes
O diagnóstico completo será dividido em etapas.
Parte 1 — Riqueza petrolífera e capacidade fiscal
Esta primeira publicação.
Parte 2 — Royalties × PIB × emprego
Vamos verificar se os períodos de maior arrecadação coincidem com maior crescimento econômico e maior geração de empregos.
Parte 3 — Royalties × renda × pobreza
Aqui entra a pergunta social:
a riqueza petrolífera chegou efetivamente às famílias?
Serão analisados CadÚnico, Bolsa Família, renda, pobreza e extrema pobreza.
Parte 4 — Onde o dinheiro foi aplicado?
Serão examinadas as despesas públicas por função:
Educação;
Saúde;
Transporte;
Urbanismo;
Saneamento;
Habitação;
Assistência Social;
Infraestrutura;
Investimentos.
Parte 5 — Campos × municípios comparáveis
Campos será comparado com:
Macaé, São João da Barra, Rio das Ostras, Quissamã e São Francisco de Itabapoana.
Parte 6 — Diversificação econômica
Será analisada a evolução de:
indústria;
serviços;
comércio;
agropecuária;
construção;
empresas;
empregos;
empreendedorismo.
Parte 7 — O pós-petróleo
A pergunta será:
Campos está preparado para um futuro em que o petróleo tenha peso cada vez menor na economia e nas receitas públicas?
10. Uma questão que ficará no centro do estudo
Ao final, pretendemos responder a uma pergunta simples, mas historicamente importante:
Campos dos Goytacazes transformou sua riqueza petrolífera em desenvolvimento ou apenas em capacidade de financiar o presente?
Não se trata de demonizar os royalties.
Pelo contrário.
Os royalties constituíram uma oportunidade histórica extraordinária para Campos.
A questão é saber quanto dessa oportunidade foi transformado em patrimônio econômico, social e territorial permanente.
Essa diferença separa uma cidade que apenas recebe riqueza de uma cidade que consegue transformar riqueza em desenvolvimento.
Nota metodológica
Esta é a Parte 1 de um diagnóstico em construção.
Os valores históricos de royalties apresentados nesta primeira etapa têm finalidade de contextualização e serão posteriormente confrontados com as bases primárias da ANP e com os registros contábeis municipais.
Também será feita a distinção entre royalties, Participação Especial, outras participações governamentais e receitas extraordinárias, evitando que categorias diferentes sejam somadas indevidamente.
Da mesma forma, os dados do Caged representam fluxo de empregos formais, enquanto estoques de trabalhadores serão analisados posteriormente por meio de bases como RAIS e IBGE.
O objetivo é produzir uma análise que permita ao leitor acompanhar não apenas os números, mas a relação entre petróleo, orçamento público, economia, emprego, renda e desenvolvimento social de Campos dos Goytacazes.
Continua.

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