Soberania não se garante apenas no discurso: Brasil precisa transformar defesa em projeto de Estado.
A afirmação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de que a “soberania do Brasil é inegociável”, em meio ao aumento das tensões comerciais e diplomáticas com os Estados Unidos, recoloca no centro do debate uma questão que o país historicamente evita enfrentar: qual é a capacidade real do Brasil de defender seus interesses quando a diplomacia não for suficiente?
A resposta passa necessariamente pela construção de uma capacidade nacional de defesa compatível com o tamanho, os recursos naturais, o território e a importância geopolítica do país.
A soberania, evidentemente, não se resume à existência de tanques, navios, aviões ou mísseis. Ela envolve instituições democráticas, autonomia econômica, segurança energética, capacidade tecnológica, controle territorial e independência diplomática. Mas também exige poder de dissuasão.
Um país que não dispõe de capacidade militar suficiente para proteger seu território e seus interesses estratégicos fica mais vulnerável às pressões externas.
O Brasil possui dimensões continentais, extensa fronteira terrestre, milhares de quilômetros de litoral e riquezas estratégicas como petróleo, biodiversidade, água, minérios e terras raras.
Não parece coerente, portanto, que uma potência regional dessa dimensão permaneça excessivamente dependente de tecnologias estrangeiras para determinadas capacidades fundamentais de defesa.
É nesse ponto que a discussão precisa superar a tradicional oposição entre “investir em armas” e “investir no desenvolvimento”.
O próprio governo federal reconhece que a Base Industrial de Defesa (BID) possui importância estratégica não apenas para a proteção do território, mas também para o desenvolvimento tecnológico, a geração de empregos qualificados e a inovação industrial.
Defesa como política industrial
O Brasil deveria tratar a construção de seu aparato de defesa como um grande projeto nacional de industrialização e soberania tecnológica.
Isso significa investir de forma contínua em pesquisa, engenharia, universidades, empresas nacionais e formação de profissionais altamente qualificados.
A indústria de defesa demanda tecnologias que transbordam para o setor civil: eletrônica, telecomunicações, materiais avançados, sistemas de navegação, inteligência artificial, robótica, engenharia aeronáutica, tecnologia espacial, cibersegurança e construção naval.
A própria política brasileira de defesa reconhece a relação entre ciência, tecnologia e capacidade militar. O Ministério da Defesa destaca, por exemplo, a contribuição histórica das Forças Armadas para áreas de alta complexidade tecnológica e para instituições como o ITA e o IME.
Defender o fortalecimento militar brasileiro não significa defender aventuras expansionistas ou uma corrida armamentista irresponsável. Ao contrário, uma política de defesa consistente deve estar subordinada à Constituição, ao poder civil e às instituições democráticas. Seu objetivo principal deve ser evitar que o país precise recorrer à guerra.
Quanto maior a capacidade de dissuasão, maior tende a ser o custo para qualquer potência que cogite impor unilateralmente seus interesses pela força.
Diplomacia e poder militar, portanto, não são necessariamente instrumentos opostos, uma diplomacia forte precisa ser respaldada por capacidade nacional.
Passou da hora de discutir um grande projeto de defesa
O Brasil já possui uma Base Industrial de Defesa, programas estratégicos e empresas capazes de desenvolver produtos sofisticados. O problema é que esses projetos ainda precisam de maior continuidade, escala e previsibilidade.
O próprio Ministério da Defesa aponta a necessidade de esforço orçamentário continuado para os projetos estratégicos e de fortalecimento da indústria nacional de defesa.
É preciso pensar além de compras pontuais de equipamentos.
O Brasil deveria estabelecer um projeto de Estado de longo prazo, com metas para décadas, envolvendo:
fortalecimento da indústria aeronáutica;
reconstrução e modernização da indústria naval;
desenvolvimento de sistemas de defesa aérea;
satélites e tecnologia espacial;
drones e sistemas autônomos;
guerra eletrônica e ciberdefesa;
radares e sistemas de monitoramento;
veículos militares nacionais;
tecnologia de propulsão;
semicondutores e eletrônica avançada;
inteligência artificial aplicada à defesa;
formação de engenheiros, cientistas e técnicos;
ampliação das exportações de produtos de defesa.
Tudo isso precisa estar integrado a uma política industrial capaz de gerar empregos qualificados, inovação e empresas tecnologicamente competitivas. A soberania também se fabrica!
Existe uma dimensão econômica nessa discussão que não pode ser ignorada. Quando o Brasil desenvolve internamente uma tecnologia militar estratégica, não está simplesmente produzindo um equipamento para as Forças Armadas. Está criando conhecimento, formando mão de obra, movimentando cadeias produtivas e reduzindo dependências externas.
O Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços reconhece justamente a indústria de defesa como vetor de reindustrialização, soberania tecnológica e inserção competitiva do Brasil nas cadeias globais de valor.
Essa é uma oportunidade que o país não deveria desperdiçar.
Dizer que a soberania brasileira é inegociável é importante, mas soberania não pode ser apenas uma frase de efeito utilizada em momentos de tensão diplomática, precisa existir concretamente na capacidade do Estado de proteger seu território, seus recursos naturais, sua população e seus interesses estratégicos. Precisa existir na indústria, nos laboratórios, nas universidades, nos estaleiros, nas fábricas, centros de pesquisa, na tecnologia espacial, na capacidade de produzir equipamentos militares sofisticados sem depender integralmente de fornecedores estrangeiros.
E, finalmente, precisa existir nas Forças Armadas, dotadas de meios modernos e compatíveis com as responsabilidades de uma nação continental.
O Brasil não precisa escolher entre desenvolvimento e defesa. Pode — e deve — utilizar a defesa como instrumento de desenvolvimento.
A questão, portanto, não é simplesmente aumentar gastos militares, é transformar o investimento em defesa em uma política de soberania tecnológica, industrial e estratégica.
Porque, no mundo real, soberania não é apenas a capacidade de dizer “não”. É também possuir condições concretas para sustentar esse “não” quando os interesses nacionais estiverem sob pressão. Passou da hora de o Brasil tratar a construção de seu aparato de defesa não como uma despesa secundária, mas como um projeto estratégico de Estado — capaz de proteger o país e, simultaneamente, impulsionar sua próxima grande etapa de desenvolvimento industrial e tecnológico'.
Comentários
Postar um comentário